A KPMG publicou em 5 de outubro a edição do terceiro trimestre da sua pesquisa global sobre inteligência artificial, com respostas de 2.131 executivos de 20 países, coletadas entre 23 de julho e 26 de agosto [1]. Sua tese central é que a vantagem competitiva está se deslocando de adotar a IA para gerenciá-la bem, o que a firma decompõe em quatro capacidades: governar a origem dos modelos, proteger aquilo a que eles podem ter acesso, coordenar como são usados e contabilizar o quanto custam.

O dado que sustenta essa tese chama a atenção. Entre as organizações que declaram um retorno sobre o investimento já consolidado, 86% dispõem de uma camada formal de gestão da IA, transversal ou estendida a toda a empresa, e 65% a têm implantada em toda a organização. Entre as que ainda estão em fase de experimentação, essas proporções caem para 31% e 10% [1].

Ler a correlação com cuidado

A conclusão tentadora é que a governança produz o retorno. Pode ser, mas a pesquisa não demonstra isso. Uma empresa que já obtém resultados tem motivos e recursos para formalizar sua gestão, de modo que a causalidade pode ir na direção contrária ou em ambas. Vale lembrar também que são dados declarados pelos próprios executivos e coletados por uma firma que presta consultoria na área. Nada disso invalida a constatação; apenas a calibra.

O capítulo dos Estados Unidos, publicado em 24 de setembro com 314 executivos de organizações com receita anual de pelo menos US$ 1 bilhão, permite ver em que consiste essa gestão [2]. 74% já incluem uma revisão de custos na aprovação de cada caso de uso de IA, frente a 61% no trimestre anterior. 70% utilizam painéis de acompanhamento e 43% fixaram orçamentos de uso ou de consumo. E 49% definiram casos de alto risco em que não permitem que os agentes decidam de forma autônoma.

O dado incômodo

Nesse mesmo capítulo há uma combinação que merece mais atenção do que a manchete [2]. A confiança dos executivos na sua capacidade de governar a IA saltou de 57% para 73% em um único trimestre. As organizações que constroem, desenvolvem ou implantam agentes passaram de 53% para 62%, e as que desenvolvem ou implantam sistemas multiagente chegaram a 25%, frente a 6% em cada um dos dois trimestres anteriores. Ao mesmo tempo, a proporção de empresas que incorporam controles dentro de seus agentes, além dos procedimentos de acompanhamento e avaliação, caiu de 43% dois trimestres antes para 30%, porque muitas confiam nas salvaguardas que já tinham.

Mais implantação de agentes, mais confiança e uma proporção menor de empresas que declara incorporar controles dentro do próprio agente. Pode ser uma decisão eficiente: reutilizar o que já funciona em vez de duplicá-lo. Também pode ser o perfil dos períodos que antecedem um incidente, quando a experiência acumulada sem sobressaltos é confundida com segurança. A pesquisa não permite saber qual das duas leituras é a correta, e justamente por isso cada direção deveria saber qual se aplica à sua empresa.

Três decisões que não exigem um departamento

Uma empresa de médio porte não precisa da estrutura de uma multinacional para aplicar o essencial. Pode começar com três decisões por escrito. Quem aprova cada uso de IA e com que estimativa de custo. O que se mede todo mês, com o custo e o resultado na mesma tabela. E quais decisões um sistema automático nunca toma sem uma pessoa que assine.

A terceira merece atenção especial: segundo a própria pesquisa, pouco menos da metade das grandes empresas americanas consultadas a formalizou [2]. Não há nada de tecnofobia nisso. É a mesma lógica dos poderes e limites de assinatura que qualquer sociedade já aplica aos seus funcionários, estendida a um novo tipo de colaborador. É uma aplicação da Reserva de Critério: a capacidade humana formada e organizada que uma entidade mantém para projetar, supervisionar e governar o que a IA produz e faz.

Uma empresa que não sabe quais decisões não delegaria a uma máquina também não sabe ao certo quais já está delegando.

Fontes e nota metodológica

  1. KPMG International. Global AI Pulse Q3 2026. AI at scale: Accountability, resilience and economics. 5 de outubro de 2026.
  2. KPMG LLP. AI's Value Story Sharpens as Organizations Gain Confidence in Governance, Accountability and Workforce Adoption. 24 de setembro de 2026.

Os números globais [1] e os do capítulo dos Estados Unidos [2] correspondem a âmbitos amostrais diferentes; a amostra americana faz parte da pesquisa global. Não devem ser tratados como dois estudos independentes nem comparados diretamente.

© 2026 Javier F. Pérez Bernabé. Todos os direitos reservados. Publicado pelo Quórum 12.

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